Na Amazônia, Brasileira desenvolve mapeamento digital para covid-19.

Geógrafa Muryel Arantes apresentará tecnologia que ajuda a identificar os níveis de infecção pelo novo coronavírus nas comunidades indígenas e quilombolas entre o Pará e o Amazonas. Ela participará de evento mundial realizado pela Google.

 

Uma pesquisadora brasileira vai representar o país em um dos maiores eventos de tecnologia promovidos pela Google. A geógrafa Muryel Arantes mostrará ao mundo a tecnologia desenvolvida para auxiliar comunidades indígenas e quilombolas no enfrentamento da pandemia de covid-19 na Amazônia.

Arantes foi convidada para a 9ª edição do projeto Geo For Good Summit, que reunirá cerca de 360 participantes. O evento acontece anualmente e, este ano, será de 20 a 22 de outubro. A Google convidou pesquisadores, cientistas e especialistas de todo o globo para apresentarem projetos que utilizam plataformas de mapeamento da empresa “para o bem”, como diz o próprio nome do evento. Devido à pandemia da covid-19, é a primeira vez que o Geo For Good ocorrerá de forma online.

No encontro sobre mapeamento digital, o Brasil será representado pela geógrafa e mestre em gestão ambiental e territorial Muryel Arantes. Ela desenvolveu um mapa que auxilia a identificar os níveis de risco de infecção por coronavírus nas comunidades da região da Calha do Norte, entre o Pará e o Amazonas, território protegido e ocupado por indígenas e quilombolas. Muryel é também coordenadora da Ecam (Equipe de Conservação da Amazônia), que atua no equilíbrio entre desenvolvimento socioeconômico e proteção ambiental dos povos tradicionais da Amazônia.

“Sempre vemos diversos números sobre essas comunidades, mas nunca algo específico desses povos. Em um único território temos diversos povos e, dentre eles, observamos taxas diferentes para casos da covid-19. Nosso levantamento levou em consideração alguns fatores para entender esses resultados e detalhar a situação de risco dos territórios que analisamos”, explicou Muryel ao Correio.

A especialista conta que o trabalho de instruir auxiliar as comunidades quilombolas em seu desenvolvimento tecnológico e educacional — uma das atribuições da Ecam — ajudou na construção do mapeamento. “O nosso projeto Compartilhando o Mundo capacitou os quilombolas a coletar dados de campo e fazer pesquisas. Grande parte dos números vieram dos próprios quilombolas”, afirma a geógrafa.

Segundo dados coletados até o dia 28 de setembro pela Coordenação Nacional de Articulação das Comunidades Negras Rurais e Quilombolas (Conaq), 4.609 quilombolas foram infectados pela covid-19. Desse contingente, 167 morreram. Ainda de acordo com o Conaq, o Brasil conta hoje com 6.330 comunidades quilombolas.

Risco de infecção

Durante a elaboração do mapeamento na Amazônia, a Ecam analisou a situação de 27 comunidades quilombolas e 33 aldeias indígenas. O estudo definiu diferentes níveis de perigo de infecção por covid: risco moderado, alto, muito alto e altíssimo. O mapeamento mostrou que 70% das comunidades indígenas e quilombolas estão em situação de nível alto, muito alto e altíssimo para contaminação da covid-19. Os mapas estão disponíveis para acesso público.

Muryel explica que cada comunidade tem particularidades e precisa ser avaliada de forma distinta, principalmente quando comparada a povos não tradicionais. “Essas pessoas já vivem em desvantagem em relação aos demais, a pandemia afetou os quilombos e as comunidades indígenas de forma brusca e eles não têm acesso aos mesmos serviços que alguém que mora nas cidades. Chegar até eles é difícil, levá-los a um hospital também. Por isso é preciso entender a fundo como vivem as comunidades, do que ela sobrevive, ao que ela tem acesso para, só assim, mapear os riscos da doença e tentar controlá-la”, avalia.

Segundo dados divulgados pela Secretaria Especial de Saúde Indígena (Sesai), do Ministério da Saúde, referentes à última sexta-feira (16/10), 30.955 mil indígenas foram infectados pelo coronavírus. Desses, 462 morreram da doença. A pesquisa envolve todos os estados brasileiros, menos o Distrito Federal, pois não existem terras demarcadas para essa população.

No entanto, os dados coletados pelo Comitê Nacional pela Vida e Memória Indígena, da Articulação dos Povos Indígenas (Apib) mostram números bem mais expressivos. Segundo os dados de hoje (19/10) disponibilizados pela entidade, 36.847 índios foram infectados pela covid-19, com 852 vítimas fatais da doença. Segundo o comitê, a contagem é feita com índios dos territórios demarcados e também daqueles que vivem em contexto urbano. Os números são atualizados diariamente.

“No início da pandemia, os órgãos públicos se negaram a acreditar que o vírus tinha chegado às comunidades indígenas. Isso atrasou muito o mapeamento da doença nas tribos e, assim, as atividades de contenção”, explica o diretor executivo da Apib, Dinamam Tuxá. Sobre a divergência de estatísticas, Tuxá garante que os dados divulgados pelas associações são mais próximos da realidade. “Além da omissão do governo, os indígenas que vivem em contexto urbano não são levados em consideração por esses órgãos. Essa decisão permite a subnotificação de casos”, critica Tuxá.

Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), as taxas de mortalidade na comunidade índigena são maiores do que na população não-indígena. O diretor executivo da Apib associa esse problema à falta de acesso desses povos a um sistema de saúde eficaz para o tratamento da doença. “A ausência do Estado e a falta de política pública é o resultado disso. Não tivemos testagem em massa das nossas comunidades, não tivemos uma ação das autoridades públicas para proteção e nem contenção. Nós (as associações) tomamos atitudes que realmente tiveram efeito, conseguimos angariar fundos de doações para conseguir EPI’s (Equipamentos de Proteção Individual) para as comunidades e, também, para a própria Sesai”, explica Tuxá.

*Estagiária sob supervisão de Carlos Alexandre de Souza

Fonte: correiobraziliense