Indígenas temem que vírus cruze as fronteiras.

Ainda mais distante dos centros urbanos está a terra indígena Tumucumaque. O território fica mais de 400 km ao norte das terras quilombolas, na fronteira com o Suriname, e só é acessível com uma viagem de duas horas em um avião fretado, saindo de Santarém. Mesmo ali, a preocupação com o coronavírus já chegou. Os indígenas trazem na memória os milhares de parentes dizimados pelas doenças dos brancos. “Para nós uma gripe já se torna facilmente um surto, imagina o coronavírus”, diz Aventino Nakai Kaxuyana Tiriyó, presidente da Associação dos Povos Indígenas Tiriyó, Kaxuyana e Txikuyana, a Aptikati.

O principal receio é com um caso confirmado em uma aldeia da etnia tiriyó no Suriname, que fica a três dias de viagem a pé da missão Tiriyós, maior aldeia de Tumucumaque, onde vivem 200 pessoas. “Para gente isso é perto. É comum o pessoal do lado brasileiro visitar os parentes no Suriname, e vice e versa”, explica Aventino. Da mesma forma, é comum os indígenas da missão Tiriyós visitarem parentes nas outras 56 aldeias do lado brasileiro, onde vivem mais de 3 mil pessoas.

Aventino também está preocupado com a presença de militares nas bases da Força Aérea e do Exército instaladas desde os anos 1960 no território. São militares vindos de Manaus, Macapá e Belém e que são substituídos a cada dois meses. Além disso, há cerca de 100 indígenas que estão vivendo de maneira fixa ou temporária em Macapá, entre eles o próprio Aventino.

Para a liderança, a maior dificuldade é comunicar os cuidados necessários aos parentes, sem colocá-los em risco. “Só tem internet na missão Tiriyós, nas outras aldeias não têm. A comunicação principal é via rádio, mas a informação chega sempre meio confusa. É um desafio para nós fazer isso sem arriscar a comunidade”.

Denise Fajardo é sócia-fundadora do Instituto de Pesquisa e Formação Indígena, o Iepé, que promove cursos de formação para população do Tumucumaque. Ela afirma que é uma ilusão achar que os indígenas estão isolados e a salvo do coronavírus. “Existe um trânsito não só entre as aldeias e cidades, mas também entre países. No Amapá e norte do Pará, os índios que vivem no Brasil têm contato frequente com parentes na Guiana Francesa, Suriname e Guiana”.

Para tentar conter a disseminação do coronavírus entre povos indígenas, a Funai publicou nesta terça-feira uma portaria restringindo a entrada de agentes do órgão e de outros civis às terras indígenas. O documento suspende a concessão de novas autorizações de entrada nestes territórios, à exceção daquelas necessárias à prestação de serviços essenciais e dos agentes de saúde. A Secretaria Especial de Saúde Indígena do Ministério da Saúde, por sua vez, lançou um Plano de Contingência Nacional para Infecção Humana pelo novo Coronavírus em Povos Indígenas.

Tanto o Iepé como a Comissão Pró-Índio de São Paulo cancelaram os trabalhos de campo e as atividades com as comunidades tradicionais. Enquanto isso, entidades indígenas estão lançando notas de esclarecimento sobre o coronavírus, como a Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira e a Federação das Organizações Indígenas do Rio Negro. As entidades suspenderam suas viagens e outras atividades.

 Fonte:  Fernanda Wenzel / theintercept